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História

Cine Teatro Mara

Sentindo a necessidade de contribuir com o crescimento cultural de Trindade e devido à grande manifestação cinematográfica da época, em 1955, o fazendeiro João Alves de Carvalho, mais conhecido como João Pirarara, e sua esposa Edna Eva Alves adquiriram as antigas e sobranceiras residências de Alfredinho Taxista e a Pensão da Dona Nega. No local dessas, construíram o prédio que seria destinado a abrigar o novo cinema da cidade.

O “Cine Teatro Mara”, que recebeu essa denominação em homenagem à filha primogênita do casal, foi solenemente inaugurado em 21 de abril de 1956, com a exibição do filme “A Viúva Alegre”. Além dos filmes consagrados, também serviu para espetáculos e apresentações de festividades escolares e culturais. Tornou-se um local bastante frequentado. Passou a servir ainda para outros eventos e reuniões políticas.

Em 7 de fevereiro de 1961, o “Cine Teatro Mara” foi adquirido pelo fazendeiro Pedro Batista Sobrinho e sua esposa Gercina Alves Sobrinho, ficando responsável pela administração o filho Arlindo Batista da Silva. Nos fundos, fez funcionar o Clube Recreativo, ponto de encontro da sociedade trindadense dos anos de 1970. Esse clube era famoso pelos bailes e pelas comemorações cívicas da juventude.

Após decadência na década de 1980, seguida de mortes na família e fechamento do clube, o local passou por uma fase de decadência. Só depois de inventário familiar, coube a Alexandre Freire Filho, neto de Pedro Batista, reabrir o cinema na década de 1990. O filho Alexandre César Batista Freire também desenvolveu um espaço de eventos que logo se tornou a “Boite Luna”. Seguiram-se também anos de apresentação de peças teatrais do grupo Desencanto e outros grupos locais até novamente o fechamento, ficando por muitos anos sem uso.

Foi então que a Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe) assumiu o espaço e passou a desenvolver um projeto para dar à população trindadense e aos romeiros a oportunidade de mais eventos culturais, sociais e de evangelização. As obras de restauração, reforma e ampliação começaram em 2014 e o início das atividades na Romaria de 2016, com novo nome de “Cineteatro Afipe”.

Cinema e cultura de Trindade

Os pioneiros do cinema ou de apresentações do gênero em Trindade foram os Missionários Redentoristas, com seus filmes de cunho religioso, nos primeiros anos do século XX, após a passagem do Arraial de Barro Preto a distrito de Campinas, em 1910. Eram exibições mudas em um pano branco, no casarão atrás da igreja.

Sebastião Aranha, artista de circo, dono do famoso “Pavilhão Mineiro”, foi o primeiro a exibir outras temáticas de filmes, trazidos em viagens cansativas, nos molambentos burros, no seu dom artístico mambembe, mas sempre atuante.

A primeira experiência cinematográfica de Trindade foi com o cinema mudo de Chico Garça que tinha também um circo de cavalinhos no Beco dos Aflitos e foi pioneiro nesse gênero. Suas fitas eram muito velhas e arrebentavam a cada hora, motivo de graça para a meninada dos anos 1920.

Segundo relatos dos jornais da época, nos anos 1930 existia o “Cine Pai Eterno” da Firma Vaz & Cia, com exibição regular de filmes famosos, que eram o deleite dos moradores da cidade, além da Sorveteria Linde, também sucesso de público após o cinema, onde se deliciavam com os “gelados”.

Outro pioneiro do gênero foi José Henrique da Rocha, conhecido como Zé Feio, administrador do “Cine Cometa”, na Rua do Comércio, sendo seu negócio, no velho casarão, apelidado de “Cine do Zé-Feio”. Marcou época em Trindade pelos filmes que apresentava, inclusive o lendário “E o vento levou”. Lá o artista e intelectual Geraldo do Carmo, em sua juventude, promovia festivais de teatro e desfiles de moda.

Em seguida, por iniciativa precursora e aventureira de um jovem fazendeiro e sua esposa, nasce o “Cine Teatro Mara”, um dos espaços mais emblemáticos da história de Trindade. Foi inaugurado com a exibição do filme “A Viúva Alegre”, da Metro. Aos 24 anos, João Alves de Carvalho, o João Pirarara, começou a pesquisar e trabalhar incessantemente na missão de construir um cinema moderno e confortável. O local tornou-se o principal ponto de encontro da cidade e sede oficial dos principais eventos. Entre exibições de filmes, solenidade de posse do poder executivo, debates e eventos variados, o espaço foi para a cidade um instrumento de conexão com a modernidade, inserindo Trindade no glamoroso e atualizado universo do cinema.

João Pirarara buscava as latas de filmes na Estação Ferroviária de Goiânia. Sem carro, levava as latas até a rodoviária de Campinas de carroça ou de carona, onde pegava o ônibus para chegar com o material até Trindade. Cada lata pesava, em média, 20 quilos. Repetia essa jornada três vezes por semana. Trabalho esse que era recompensado pelas salas lotadas em exibições de filmes consagrados. De início, eram realizadas sessões semanais e cinco sessões dominicais, completamente lotadas.

Dentre muitos outros espetáculos de cunho cultural exibidos no “Cine Teatro Mara”, destacam-se: a participação do apresentador Morais César, que exibiu a dupla “Brazão e Marinheiro”; Otavinho Arantes, com a peça “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna; João Bênnio e “As Mãos de Eurídice”, de Pedro Bloch. Também houve apresentação do famoso comediante “Zé-Trindade” e apresentações de festividades escolares e culturais, coordenadas por Geraldo do Carmo. O primeiro seriado apresentado foi “Batalha contra o medo” e “Falcão da Floresta” e o primeiro “vesperal” foi “Ousadia”, com Burt Lancaster, filme colorido, da Metro.

Na mudança de gestão, com Pedro Batista Sobrinho e o filho Arlindo Batista da Silva, o primeiro filme exibido foi da Warner Bross, cujo ator principal contracenava com Diane Forster. Funcionava também o Clube Recreativo. Havia uma amplificadora que tocava músicas do Grupo Poli, que era emblema para o começo dos filmes.

Na administração de Alexandre Freire Filho e o filho Alexandre César Batista Freire, o cinema de Trindade foi reaberto com o filme “Doutor Jivago”. Outros filmes famosos foram exibidos, além de festivais de teatro do Grupo Desencanto.

A partir de um novo projeto, agora denominado “Cineteatro Afipe”, visa acolher romeiros, moradores e visitantes. A Associação Filhos do Pai Eterno desenvolve a potencialidade de um espaço amplo e multiuso, com programação variada, dando opções de evangelização, lazer e cultura. Com palestras, celebrações, exibições de filmes, apresentações culturais e outros eventos, o espaço retoma suas atividades com a missão de dar continuidade à história de Trindade.

Fontes: Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado e Afipe